Homem diz ter sido assediado sexualmente por Júlio Lancellotti

Terça-feira, 12 de maio de 1987. A data é marcante para o jornalista Cristiano Gomes. Sua avó paterna havia morrido naquele dia. Uma semana depois, ele foi vítima de assédio sexual. Cristiano tinha 11 anos na época.

Na missa de sétimo dia da avó, ele estava com familiares na Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, onde era coroinha. Depois da celebração fúnebre, Cristiano foi à sacristia para chorar. Num primeiro momento, foi acolhido pelo pároco de plantão. Depois, no entanto, percebeu que aquilo não era apenas um mero consolo fraternal.

O religioso passou a pressionar seu corpo contra o de Cristiano, a fazer carícias e a encostar a sua barba no rosto do garoto. Assustado e percebendo a excitação do algoz, conseguiu escapar e saiu da igreja para nunca mais voltar. Jamais esqueceu o que passou, muito menos o autor do assédio: o padre Júlio Renato Lancellotti.

Quase 37 anos depois do ocorrido, Cristiano resolveu tornar público o episódio do qual foi vítima. Em conversa exclusiva com Oeste, ele reforça não ter interesse algum em fama nem muito menos em “se dar bem” a partir da denúncia contra o padre. Antes de qualquer acusação, adianta-se para avisar que não é “bolsonarista” nem que foi motivado por questões político-partidárias.

Cristiano acredita que chegou a hora de falar publicamente sobre o caso — que guardou em segredo até da própria família — em razão dos últimos acontecimentos. Mesmo com medo de pôr sua segurança em risco, Cristiano, hoje com 48 anos, demonstra indignação com a rede de apoio a Lancellotti, que reúne boa parte da imprensa e da esquerda — e agora quer premiar o padre com o Nobel da Paz. A indignação de Cristiano aumentou com a informação, publicada em primeira mão por Oeste, de que uma nova perícia atestou a veracidade do vídeo em que Lancellotti aparece se masturbando para um menor de idade.

“Terminada a missa de sétimo dia, fui à sacristia e entrei num choro incessante, finalmente havia caído a ficha de que eu nunca mais iria ver a minha avó”, lembra Cristiano. “Nesse momento, o padre entrou e me abraçou, um abraço que parecia ser afetuoso. Eu tinha muita admiração por ele e recebi aquele abraço como se fosse de um pai. Ele me abraçava e falava ‘te gosto muito, não fique assim’. Só que isso evoluiu. A barba dele, por fazer, começou a ‘roçar’ no meu rosto, ele apertou mais o corpo contra o meu e começou a fazer movimentos — ou seja, esfregar-se em mim. Naquele momento, senti que ele estava excitado. Toda aquela admiração que eu tinha por ele virou medo. Eu me desvencilhei dos braços dele, saí correndo e nunca mais voltei à igreja.”

“As pessoas conhecem o personagem padre Júlio”, diz Cristiano. “Mas eu, da pior maneira possível, conheci o homem Júlio Renato Lancellotti.”

Sobre o tempo em silêncio, Cristiano afirma que só teve coragem de falar sobre o caso de assédio sexual depois que o seu pai morreu, em 2012. Havia um misto de vergonha e medo. “Não é fácil, ninguém sente orgulho em falar que foi assediado”, conta. “Eu era uma criança. Seria a minha palavra contra a dele, que certamente falaria que eu estava abalado com a morte da minha avó e que não tinha sido nada daquilo.”

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Fora isso, Cristiano admite que, pelo tempo em silêncio e pelo misto de vergonha e medo, não levou o caso adiante. Não há registro de boletim de ocorrência, denúncia formal ao Ministério Público nem comunicado do ocorrido a algum órgão da Igreja Católica. Condições essas que ele está disposto a mudar. “Estou à disposição das autoridades e da Igreja”, enfatiza. “Quero levar adiante essa denúncia, pois acredito que chegou a hora de as pessoas saberem quem é não o padre que aparece na imprensa, mas o ser humano Júlio Renato Lancellotti, que, repito, tive o desprazer de conhecer da pior forma possível.”

O vídeo em que Júlio Lancellotti aparece foi gravado em 2019 | Foto: Julia Prado/Ministério da Saúde
O vídeo em que Júlio Lancellotti aparece foi gravado em 2019 | Foto: Julia Prado/Ministério da Saúde

Mesmo sem nunca mais voltar à igreja que tem Lancellotti como pároco, Cristiano informa que se reencontrou com o padre em duas oportunidades. A primeira vez que voltou a ficar cara a cara com o religioso ocorreu quando ainda era menor de idade, em frente ao 8º Distrito Policial de São Paulo, a metros da Paróquia São Miguel Arcanjo. Houve um diálogo de poucas palavras, mas Cristiano fez questão de deixar claro que se lembrava do assédio.

“Sempre tive medo dele, mas queria que ele soubesse que eu me lembrava do que havia acontecido”, diz. “Ele perguntou como eu estava, e eu disse que estava trabalhando na Polícia Civil, que agora eu era investigador.” A mentira, de acordo com Cristiano, foi a forma que encontrou para tentar amedrontar o padre. “Quis intimidá-lo, mostrar que eu não tinha me esquecido do que ele fez comigo.”

O último encontro aconteceu em 2015. Lancellotti foi o responsável por celebrar o casamento do irmão mais novo do jornalista. A celebração ocorreu na capela que fica nas dependências do campus da Mooca da Universidade São Judas Tadeu. Na ocasião, Cristiano teve certeza de que o padre se lembrava do assédio sexual.

“Lancellotti fez questão de dizer que o meu irmão tinha sido batizado por ele, e de fato o foi, na paróquia dele”, conta. “Mas ele não falou que eu tinha sido coroinha dele. Ali, tive a certeza de que ele se lembrava do que havia feito comigo.”

Depois disso, os caminhos de Cristiano e Lancellotti nunca mais se cruzaram. No decorrer do tempo, contudo, o jornalista recebeu indícios de que não foi sua única vítima. Semanas depois de ter sido assediado, um colega de escola perguntou por qual razão ele tinha deixado de comparecer às missas. Mesmo sem ter a confirmação, esse amigo de colégio disse que já sabia o motivo da repentina mudança na rotina de Cristiano: Lancellotti havia mexido com ele.

Na mesma época, segundo Cristiano, uma mulher chamada Vitória, que colaborava com o padre, também deu indícios de que sabia o que de fato tinha acontecido. “A gente morava na mesma rua e ela falou que o padre gostava muito de mim e que não tinha acontecido nada, de que tudo foi ‘apenas demonstração de carinho’.” Vitória já morreu, avisa Cristiano.

Caso ficasse frente a frente com o padre hoje, Cristiano revela qual seria sua reação. “A única coisa que tenho a dizer, olhando para os olhos dele, é que, por mais que negue, ele, eu e Deus sabemos que é verdade”, diz. “Aproveitaria para perguntar para onde ele acha que vai quando morrer, se é que ele acredita na Palavra que prega.”

Silêncio já havia sido rompido

Cristiano Gomes lembra que essa não é a primeira vez que torna público o assédio sexual. Ele descreveu o episódio no seu perfil no Facebook em duas ocasiões.

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A primeira foi em fevereiro de 2018, quando Cristiano recordou a denúncia feita dez anos antes por Anderson Batista, um ex-interno da Fundação Casa, que admitiu ter chantageado o padre para não revelar a história de que, supostamente, chegou a manter relações sexuais com o religioso. Ninguém se interessou em ouvir Cristiano.

A segunda ocorreu em junho de 2022. Sem meias palavras, Cristiano detalhou o que ocorreu com ele na sacristia da Paróquia São Miguel Arcanjo em 12 de maio de 1987 (confira a íntegra do relato abaixo). Ele lembra que, antes mesmo de ser divulgada a nova perícia que atesta a veracidade do vídeo em que aparece se masturbando para um menor de idade, o padre, que teve o perfil marcado no Facebook, bloqueou o jornalista na rede social.

Mesmo depois da publicação, o caso não ganhou espaço na mídia. O silêncio também prosseguiu entre a alta cúpula da Igreja Católica em São Paulo. “As pessoas conhecem o padre Júlio”, desabafa. “Parabéns, o padre Júlio é sensacional. Vamos agora conhecer o homem Júlio Renato Lancellotti, que não deve ser enaltecido. Esse abusa de criança.”

Oeste tentou contato com o padre Lancellotti e com a Paróquia São Miguel Arcanjo. Não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Leia, abaixo, o relato publicado por Cristiano Gomes em 30 de junho de 2022

“Em maio de 1987, depois de lutar contra um câncer, minha avó paterna — que, praticamente, era minha mãe, pois cuidava dos netos para sua nora e seu filho trabalharem — morreu.

Naquela época, eu era coroinha da Paróquia de São Miguel Arcanjo, igreja na qual fui batizado e fiz a primeira comunhão. A missa de sétimo dia da minha avó foi realizada lá.

Aos 11 anos de idade, pela primeira vez, senti a dor da perda de alguém que tanto se ama. Minha avó era doce, era linda, era meu porto seguro, àquela época. A ‘ficha caiu’ ao término da cerimônia.

Fui em direção à sacristia e, já no interior do cômodo, comecei a chorar muito: ‘Como assim? Por que nunca mais verei minha avó?’. Era criança, não tinha a capacidade de compreender a morte.

Minutos depois, adentrou ao recinto o pároco JÚLIO LANCELLOTTI que, naqueles anos, não era conhecido como é hoje. Ele abraçou-me e, num primeiro instante, senti-me acolhido, parecia ser um abraço fraterno e eu o admirava pela forma com a qual pregava a Palavra e, também, pelas críticas veladas às mazelas dos governantes e sua luta pela extinta Casa Vida, que acolhia crianças soropositivas.

Mas a demonstração de ato carinhoso partiu para carícias enquanto ele forçava seu corpo ao meu, roçando a barba por fazer em meu rosto e encostando seu pênis, ereto, dentro de sua calça, em mim.

Assustado, consegui desvencilhar-me e nunca mais coloquei os pés na igreja. Meus pais perguntavam-me o porquê, já que eu gostava de prestar serviço àquela paróquia, e eu respondia, simplesmente, que não queria mais. Se eu contasse, em casa, o que havia acontecido, meu pai, certamente, espancaria o padre e, como não houve relação sexual consumada, como poderia provar? O próprio Lancellotti poderia dizer tratar-se de confusão emocional e ninguém acreditaria na versão de uma criança. Ou acreditaria?

Desde então, não havia dito a ninguém o que me ocorreu. Só em 2012, 25 anos depois, com a morte do meu pai, é que trouxe isso à tona à minha família.

Silenciei por vergonha e medo. Naqueles anos parecia ser ‘normal’ assediar menores. Não parecia tão errado passar a mão em suas partes íntimas; adultos apresentarem revistas eróticas a crianças; chamar de macaco o amiguinho negro; de aleijado o deficiente físico; de retardado o deficiente mental… parecia que tudo era permitido.

Os tempos mudaram, ganhamos CONSCIÊNCIA, mas; hoje… quem acreditará nessa história, tendo em vista a popularidade do sacerdote, mesmo com outras denúncias contra ele no passado? Talvez os da Mooca mas, em geral, É SÓ MAIS UM CASO DE ASSÉDIO EM UM TERRENO ONDE É PRATICADO MILENARMENTE!

Infelizmente, há mais de séculos institucionalizam os muitos absurdos neste país, que vão além do machismo e de suas vertentes.

E, sobre esse meu relato, ainda não houve, em meu Facebook, uma única manifestação de algum colega. Sou jornalista.

Portanto, CASOS DE ASSÉDIO, NO Brasil, SÃO CONSIDERADOS GRAVES A DEPENDER DAS IDENTIDADES DOS MALFEITORES. Se for conveniente, serão denunciados. Se não, ignorados.” 

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