Está liberado o antissemitismo em universidades dos EUA

Durante uma audiência no Congresso dos Estados Unidos, realizada na terça-feira 5, os presidentes das três principais universidades norte-americanas se negaram a reconhecer que as manifestações antissemitas observadas em seu campi contrariam os princípios das instituições de ensino.

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra alguns trechos da audiência, nos quais parlamentares republicanos interpelam Claudine Gay, da Universidade Harvard; Sally Kornbluth, do Massachusetts Institute of Technology (MIT); e Liz Magill, da Universidade Pensilvânia.

Ao ser indagada pela deputada Elise Stefanik, de Nova York, se “apelar ao genocídio dos judeus” seria contra os códigos de conduta da Universidade Pensilvânia, Liz disse o seguinte: “É uma decisão que depende do contexto”. Ao ouvir a resposta, a parlamentar replicou. “Apelar ao genocídio dos judeus depende do contexto? Isso não é bullyng nem assédio? Essa é a pergunta mais fácil de responder ‘sim’, Sra. Magill.”

A mesma pergunta foi direcionada a Claudine. “Quando o discurso se cruza com a conduta, agimos”, respondeu a presidente da Universidade Harvard, ao sugerir que nenhuma punição seria imposta àqueles que fizessem declarações antissemitas.

Na mesma linha dos colegas, a presidente do MIT disse que eventual manifestação contrária à existência dos judeus só seria “investigada como assédio se fosse generalizada e severa”.

Universidades dos EUA admitem escalada do antissemitismo

A resposta do trio chamou atenção dos parlamentares, porque Claudine, Sally e Liz reconhecem as manifestações antissemitas em seu campi e admitem que essas práticas se acentuaram desde os recentes ataques terroristas do Hamas, em 7 de outubro. Pelo menos 1,4 mil israelenses morreram.

“Sei que alguns estudantes israelenses e judeus se sentem inseguros no campus”, constatou Sally. “Ao suportarem o horror dos ataques do Hamas e a história do antissemitismo, esses estudantes foram angustiados em manifestações recentes.”

A audiência no Congresso dos Estados Unidos, que durou mais de cinco horas, ocorre em meio à alta de manifestações antissemitas nas universidades. Vídeos que circulam nas redes sociais desde o início dos ataques de terroristas mostram professores e estudantes pró-palestina liderando protestos contra Israel.

Na mesma terça-feira 5, os parlamentares aprovaram uma resolução dos republicanos que equipara o antissemitismo (ódio aos judeus) ao antissionismo (ódio ao Estado de Israel). Esse movimento em defesa dos israelenses se tornou importante desde a ofensiva do Hamas, visto que intelectuais e universitários pró-palestina justificaram seus protestos com o argumento de que suas críticas seriam direcionadas ao Estado de Israel, e não à população judaica.

É permitido clamar pela jihad

Ainda na audiência, Liz se negou a dizer que os protestos favoráveis à revolução islâmica global contrariam o código de conduta da Universidade Pensilvânia. Durante a Segunda Intifada, há duas décadas, ataques terroristas de palestinos mataram aproximadamente mil judeus.

“Acho que os cânticos que apelam à intifada e à revolução global são muito perturbadores”, disse Liz, depois de negar que essas manifestações seriam reprimidas. “Acredito que, no mínimo, esse é um discurso de ódio, que foi e deve ser condenado. O incitamento à violência é uma categoria muito restrita.”

Claudine, da Universidade Harvard, seguiu o mesmo discurso e tergiversou sobre eventuais punições àqueles que fizerem cânticos favoráveis às intifadas. “Esse tipo de discurso odioso, imprudente e ofensivo é pessoalmente abominável para mim”, afirmou, para logo na sequência dizer que essas práticas seriam punidas apenas se cruzassem “com uma conduta que viola as nossas políticas, incluindo políticas contra bullying, assédio ou intimidação”.

Financiadores de universidades criticam manifestações antissemitas

Em razão da escalada antissemita em Harvard, os doadores da instituição de ensino repudiaram a inépcia de seus reitores, professores e universitários. O judeu Bill Ackman, por exemplo, investidor bilionário e ex-aluno de Harvard, é um dos que se manifestaram contra a universidade.

The presidents of @Harvard, @MIT, and @Penn were all asked the following question under oath at today’s congressional hearing on antisemitism:

Does calling for the genocide of Jews violate [your university’s] code of conduct or rules regarding bullying or harassment?

The… pic.twitter.com/eVlPCHMcVZ

— Bill Ackman (@BillAckman) December 5, 2023

Atualmente, Harvard é alvo de uma investigação sobre antissemitismo. A polícia norte-americana apura o caso em que uma estudante israelense sofreu ataques em um protesto favorável à Palestina, no campus, no mesmo dia dos atentados terroristas do Hamas.

Já a Universidade Pensilvânia está sob investigação do Departamento de Educação dos Estados Unidos, em virtude da realização de um festival de literatura palestina dentro de suas dependências.

Brasil também é palco de manifestação contra os judeus

Em 10 de outubro, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) publicou um posicionamento nas redes sociais. “Nota em solidariedade ao povo palestino e aos civis vitimados pela guerra”, dizia o título.

No texto, o grupo alega que Israel, “apoiado por Bolsonaro”, promove “assassinatos, prisões, invasões de casas, roubos de terra e outros crimes dos direitos humanos” contra os palestinos. Naquele dia, já havia a confirmação de mais de mil mortos em Israel.

Esse apoio não surgiu agora. Em 2021, quando deputados de esquerda assinaram, ao lado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um manifesto a favor do Hamas, a comunidade acadêmica não ficou de fora. A lista de apoiadores incluiu o Grupo de Estudos Retóricas do Poder e Resistências (Gerpol), da Universidade de Brasília (UnB); uma professora de antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); um professor da Universidade Estadual do Ceará; e um professor do departamento de economia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

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DCE da PUC-Rio disse que Israel “viola direitos humanos” três dias depois do país sofrer um massacre nas mãos dos terroristas do Hamas | Foto: Reprodução/Instagram/pucriodce

Outros foram além e manifestaram seu antissemitismo de modo direto. É o caso de Fernanda de Melo, bacharel em relações internacionais e pós-graduanda em gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP).

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Até então confirmada para palestrar na USP, Fernanda Melo celebrou o assassinato de Bruna Valeanu no massacre de 7 de outubro em Israel | Foto: Reprodução/Twitter

Palestramte na aula pública “A questão da Palestina” na USP, Fernanda comemorou o assassinato de Bruna Valeanu, de 24 anos, em Israel. “Foi tarde”, disse, sobre a jovem brasileira-isralense, no Twitter/X. Em entrevista à revista Fórum, dois dias depois da invasão do Hamas, Fernanda acusou Israel de fazer apartheid contra a população de Gaza.

O cientista político Heni Ozi Cukier, ex-deputado estadual conhecido como HOC, conta que a posição anti-Israel da esquerda universitária tem suas raízes no marxismo. Ele, que também é judeu, explica que a ideia de combater o “imperialismo” norte-americano também contribui para isso, já que os Estados Unidos são aliados de Israel.

HOC argumenta que Israel é um país distinto dos vizinhos do Oriente Médio. “Do ponto de vista econômico, democrático e político”, observou, ao lembrar que os israelenses adotam o capitalismo de livre mercado, a liberdade de expressão e a tolerância de ideias. Esse conjunto de valores é incomum nos países árabes.

“Outra explicação é puro ódio e antissemitismo, o racismo contra judeus”, acrescenta HOC. “A combinação entre o preconceito e a ideia de ‘opressor’ constrói a narrativa de que os israelenses não precisam ser ajudados, não merecem empatia e consideração.”

HOC afirma que os movimentos de esquerda subjugam os judeus, embora digam defender as minorias. “Como é que existe um preconceito contra uma minoria?”, perguntou. “Que os judeus claramente são, isso é incontestável — pelo tamanho da população judaica espalhada pelo mundo e pelo Estado de Israel, que é muito pequeno. Mas uma minoria que a ideologia da esquerda conseguiu classificar como forte, poderosa e opressora de maiorias inteiras.”

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