entenda a vitória do ‘sim’ no referendo de Maduro

Depois do anúncio da vitória do “sim” no referendo venezuelano para a anexação da região de Essequibo, que pertence à Guiana, no domingo 3, a grande pergunta é o que virá a seguir.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, ressaltou que a vitória representa “o primeiro passo” para que a Venezuela lute pelo território que considera seu. Apesar do alerta ligado na América do Sul para a possibilidade de um conflito armado entre Caracas e Georgetown, analistas dizem que o movimento de Maduro ocorreu para desviar a atenção do público para a crise política e econômica no país, que terá eleições em breve.

Guiana Venezuela | Parte das águas do Rio Essequibo, território em disputa com a Venezuela, abrigou parte do petróleo encontrado em 2015 | Foto: Divulgação/Google Maps
Parte das águas do Rio Essequibo, território em disputa com a Venezuela, abrigou alguma quantidade do petróleo encontrado em 2015 | Foto: Divulgação/Google Maps

O professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Oliver Stuenkel, destacou em sua coluna que a votação é meramente simbólica. “O plebiscito é uma manobra clássica para inflamar o nacionalismo antes das eleições em 2024”, escreveu. “Cientes do risco de serem rotulados de traidores da pátria se criticassem a estratégia esdrúxula de Maduro de priorizar a retomada de Essequibo, oposicionistas não viram outra opção a não ser apoiar o autocrata venezuelano nesse quesito específico.”

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, 95% da população optou pelo “sim” no plebiscito. Elvis Amoroso, presidente do órgão, informou que 10,5 milhões de pessoas participaram do pleito — uma adesão muito baixa à consulta, em um país que tem uma população eleitoral de 20,7 milhões de pessoas

A crise econômica da Venezuela e as concessões feitas por Maduro para a participação da oposição nas eleições marcadas para o ano que vem fizeram com que o regime buscasse meios para tentar oxigenar o seu movimento, avalia o professor de relações internacionais Leonardo Trevisan, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Este plebiscito teve esse papel, de mobilizar a população. A existência de um inimigo externo é sempre um fator mobilizador”, acrescentou.

YouTube videoYouTube video

Qual é a possibilidade de um conflito armado entre Venezuela e Guiana?

A possibilidade de uma guerra iniciada por Caracas para a anexação de Essequibo é pequena, de acordo com Stuenkel, e teria um custo diplomático muito alto para o regime de Maduro. A Venezuela conta com a flexibilização das sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia para respirar economicamente. O alívio do pacote de sanções para o regime de Maduro ocorreu em um contexto de maior busca por petróleo, depois do início da guerra da Ucrânia, e foi condicionado à realização de eleições livres e justas no país em 2024.

“Para o regime venezuelano, o custo diplomático e econômico de uma guerra iniciada por Maduro seriam imensos, desde a reimposição de sanções amplas por parte de Washington até a condenação diplomática quase universal — inclusive na América Latina”, afirmou o professor de relações internacionais da FGV. “No caso pouco provável de um ataque militar por parte da Venezuela, a Guiana contaria com apoio de seus aliados, como os Estados Unidos, para preservar sua integridade territorial.”

Georgetown avalia que Washington é um aliado próximo e considera a possibilidade de expandir a cooperação no setor de defesa com os EUA. Com uma população de um pouco mais de 800 mil pessoas e um poderio militar modesto, a Guiana admite o estabelecimento de uma base militar dos EUA em seu território. Os norte-americanos enviaram à Guiana chefes do Comando Sul das Forças Armadas para contribuir nos planos de defesa da nação sul-americana.

“Nunca estivemos interessados em bases militares, mas temos de proteger o interesse nacional”, declarou o vice-presidente de Guiana, Bharrat Jagdeo.

Neste momento, em caso de uma invasão venezuelana, um conflito representaria uma ameaça à soberania da Guiana, por causa das diferenças entre os contingentes dos dois países. Enquanto a Venezuela tem um efetivo de 123 mil pessoas, a Guiana tem um Exército de 3,4 mil soldados. “Estamos lidando com forças militares completamente diferentes”, observou Trevisan. “A Venezuela tem um armamento russo, com tecnologia avançada.”

YouTube videoYouTube video

Entenda a importância do petróleo no confronto

As reservas de petróleo no território da Guiana são um fator-chave para entender a disputa entre o único país de língua inglesa na América do Sul e a Venezuela. A descoberta de petróleo bruto no país em 2015 pela empresa americana do setor petrolífero ExxonMobil transformou a economia da Guiana. A ex-colônia britânica possui cerca de 11 bilhões de barris de reservas provadas de petróleo bruto, ou cerca de 0,6% do total mundial. A produção começou três anos atrás e agora está aumentando o ritmo.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o país cresceu 62% no ano passado e deverá somar mais 37% este ano. Essa é a taxa de crescimento mais rápida em qualquer lugar do mundo.

A situação do país vizinho é bem diferente, com o sucateamento da empresa estatal venezuelana de petróleo PDVSA, por causa de diversos casos de corrupção e mau gerenciamento. A capacidade de produção de petróleo da Venezuela caiu de 3,4 milhões de barris para apenas 700 mil por dia.

“As recentes descobertas de petróleo em Essequibo levaram Maduro a tentar resgatar uma narrativa de vitimização histórica, segundo a qual a nação foi roubada da riqueza que lhe pertence”, diz Stuenkel, em sua coluna. A região de Essequibo é rica em recursos naturais e representa dois terços do território da Guiana, além de ser o lar de 125 mil habitantes da ex-colônia britânica.

YouTube videoYouTube video

A disputa territorial teve origem no século 19, quando o Reino Unido reclamou a região que pertencia à Venezuela, recém-separada da Espanha, como parte de sua Guiana. Uma arbitragem internacional patrocinada pelos EUA lhe deu razão em 1899. O resultado foi contestado pela Venezuela e nova discussão ocorreu em 1966, em Genebra, quando a Guiana se tornou independente.

Os países assinaram o Acordo de Genebra, para buscar uma solução para o conflito fronteiriço, reconhecendo a existência de uma controvérsia decorrente da sentença de 1899. Contudo, as tratativas associadas a esse acordo continuaram a se desdobrar ao longo do tempo, sem que se alcançassem resultados concretos.

A Corte Internacional de Justiça (CIJ), com sede em Haia, determinou na sexta-feira passada, 1º, que a Venezuela deve evitar qualquer iniciativa que comprometa o statu quo com a Guiana. A decisão do CIJ respondeu a um pedido da Guiana ao alto tribunal para que ordenasse “urgentemente” a paralisação do plebiscito venezuelano. O Tribunal de Haia se pronuncia sobre litígios entre Estados e suas decisões são juridicamente vinculantes, mas a Corte não tem o poder para fazer com que Caracas cumpra o veredito.

Brasil em compasso de espera

Considerado um aliado da ditadura venezuelana e incentivador para uma reaproximação dos países da América do Sul com Maduro, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a região não precisa de “confusão” e que é preciso “baixar o facho”, no domingo 3, durante entrevista coletiva em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, onde participou da Conferência do Clima (COP28) da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Espero que o bom senso prevaleça do lado da Venezuela e do lado da Guiana”, disse o presidente do Brasil.

O Ministério da Defesa intensificou a presença militar na tríplice fronteira em Roraima e afirmou que monitora a crise. O presidente brasileiro informou que conversou por telefone com o presidente da Guiana, Irfaan Ali.

Para o professor de relações internacionais da FGV, o referendo de Maduro funcionou como um “tapa na cara” do governo brasileiro por ter o potencial de afetar a imagem internacional da região, que se mostrou mais estável geopoliticamente, na comparação com outras regiões do globo. “Vale lembrar que, sobretudo desde a invasão russa à Ucrânia, a América Latina tornou-se mais atraente para investidores simplesmente por estar geograficamente afastada de qualquer tensão geopolítica”, disse.


Revista Oeste, com informações da Agência Estado

Receba atualizações em tempo real diretamente no seu dispositivo, inscreva-se agora.

Deixe um comentário

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência. Presumiremos que você concorda com isso, mas você pode cancelar se desejar. Aceitar Mais informação

Política de Privacidade e Cookies